quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

" E agora, José? "



Um pouco de Drummond

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 1902, cujo meio físico e social de sua terra marcou-lhe profundamente. Pertenceu a classe média brasileira, ganhou a vida como funcionário público e jornalista, dedicou-se à literatura por prazer, tornando-se um ilustríssimo escritor. De um estilo variado, trabalhou todas as formas como versos curtos e longos, próximos da prosa, versos metrificados e livres, versos rimados, versos brancos, formas fixas, como um soneto e formas livres, atualizou arcaísmos e inventou neologismos, produziu uma vasta obra literária e é reconhecido mundialmente.
Em 1942 o poema José foi publicado, ano de inúmeros acontecimentos políticos e econômicos que marcaram a sociedade brasileira como a atuação do Estado Novo que trouxe miséria, repressão política e a formação de classes opressoras e oprimidas. "José" representa um problema de todos, em que expressa uma condição reflexiva da existência e resistência diante de tanta repressão.

José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.

José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?



Carlos Drummond de Andrade

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